Proposta anti-cena:

Entregar aos passageiros um texto-manifesto-poesia.

Pergunta-chave:
como entregar?

Assim, como um novo equívoco, como um coração que transborda, como um berro sem dor, num grito manso e suave, da sua boca, em estrofes precisas e firmes, com a altivez daquela cantora que um dia alguém lhe apresentara, saltava a canção,

"Chega de tentar dissimular
E disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar
E eu não posso mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar e me cortou

Chega de temer, chorar, sofrer
Sorrir, se dar, e se perder, e se achar
Que tudo aquilo que é viver,
Eu quero mais é me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o Sol
Desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manhã

Nascendo, rompendo, rasgando,
E tomando meu corpo e então...
Eu... chorando, sofrendo, gostando, adorando
Gritando feito louca, alucinada e criança
Sentindo o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar
Explode coração"


Cantando, conversava. Não com um homem, porque dessas dores ela já não padecia como outrora, mas com o mundo. Quem lhe cortara fora o mundo. Era para o mundo que entoava aquelas palavras. E o mundo, naquele momento, eram os passageiros que com ela atravessavam a cidade. Para chegar onde ela não sabia. Ainda.








Camadas e camadas de informações inuteis que ela tinha vontade de transgredir e rasgar com absoluta autonomia e beleza. Informações que não lhe serviam pra mais nada a não ser tampar o buraco vazado dos olhos, vazios, como nas obras de Modigliani.
Mas é sujo, é sujo. É sujo o banco em que está sentada, é sujo o ônibus, é sujo o mundo. Ela começa a tentar olhar para além de si, e não consegue, não consegue ver o outro. O outro está envolto em folhas de jornal. São muitas folhas de jornal, tantas tantas, que cobrem o corpo, o olhar, o desejo, o vir-a-ser de qualquer um, de muitos ali.
A janela esta aberta, o ar que circula entra fundo em seus pulmões.
Ela olha tudo ao redor e sente um prazer discreto de ser observada
por alguém. Talvez esse alguém fosse ela mesma de um outro jeito
É sincero, pois, existe o desejo de estar ali.
E não um desejo que se insere de fora pra dentro, é um desejo encarnado, encarnado de si próprio.
Sim, foi isso que disse o vento ao soprar em seus ouvidos.
Buscava inconscientemente este momento faz tempo porém sempre praticava o bom comportamento segundo o aprendizado com os pais.
Hoje não, hoje a decisão de permanecer no onibus errado é sincero pela primeira vez.
Os segmentos de tempo se unem uns aos outros num encaixe, mas não totalmente perfeito.
Barulho.
Uma mulher pegou o ônibus errado.
É a situação mais excitante que já viveu nos últimos tempos.
É uma excitação pueril, de alguém que acaba de fazer uma travessura.
Aceita fazer o trajeto desconhecido.
Desconhece o caminho e torna-se uma desconhecida de si mesma.
Sente que pode fazer qualquer coisa.
Começa a cantar baixinho, como que preparando-se para um rito de passagem, como que preparando-se para cometer um crime.