Entregar aos passageiros um texto-manifesto-poesia.
Pergunta-chave:
como entregar?
Esboços de dramaturgia colaborativa para ações performáticas - por Cibele Mateus, Cris Abreu, Flávia Tavares, Mariana Vilela e Sol Bento
"Chega de tentar dissimular
E disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar
E eu não posso mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar e me cortou
Chega de temer, chorar, sofrer
Sorrir, se dar, e se perder, e se achar
Que tudo aquilo que é viver,
Eu quero mais é me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o Sol
Desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manhã
Nascendo, rompendo, rasgando,
E tomando meu corpo e então...
Eu... chorando, sofrendo, gostando, adorando
Gritando feito louca, alucinada e criança
Sentindo o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar
Explode coração"
Cantando, conversava. Não com um homem, porque dessas dores ela já não padecia como outrora, mas com o mundo. Quem lhe cortara fora o mundo. Era para o mundo que entoava aquelas palavras. E o mundo, naquele momento, eram os passageiros que com ela atravessavam a cidade. Para chegar onde ela não sabia. Ainda.
Sorrir, se dar, e se perder, e se achar
Que tudo aquilo que é viver,
Eu quero mais é me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o Sol
Desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manhã
Nascendo, rompendo, rasgando,
E tomando meu corpo e então...
Eu... chorando, sofrendo, gostando, adorando
Gritando feito louca, alucinada e criança
Sentindo o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar
Explode coração"
Cantando, conversava. Não com um homem, porque dessas dores ela já não padecia como outrora, mas com o mundo. Quem lhe cortara fora o mundo. Era para o mundo que entoava aquelas palavras. E o mundo, naquele momento, eram os passageiros que com ela atravessavam a cidade. Para chegar onde ela não sabia. Ainda.
Mas é sujo, é sujo. É sujo o banco em que está sentada, é sujo o ônibus, é sujo o mundo. Ela começa a tentar olhar para além de si, e não consegue, não consegue ver o outro. O outro está envolto em folhas de jornal. São muitas folhas de jornal, tantas tantas, que cobrem o corpo, o olhar, o desejo, o vir-a-ser de qualquer um, de muitos ali.
Os segmentos de tempo se unem uns aos outros num encaixe, mas não totalmente perfeito.
Barulho.
Uma mulher pegou o ônibus errado.
É a situação mais excitante que já viveu nos últimos tempos.
É uma excitação pueril, de alguém que acaba de fazer uma travessura.
Aceita fazer o trajeto desconhecido.
Desconhece o caminho e torna-se uma desconhecida de si mesma.
Sente que pode fazer qualquer coisa.
Começa a cantar baixinho, como que preparando-se para um rito de passagem, como que preparando-se para cometer um crime.
Barulho.
Uma mulher pegou o ônibus errado.
É a situação mais excitante que já viveu nos últimos tempos.
É uma excitação pueril, de alguém que acaba de fazer uma travessura.
Aceita fazer o trajeto desconhecido.
Desconhece o caminho e torna-se uma desconhecida de si mesma.
Sente que pode fazer qualquer coisa.
Começa a cantar baixinho, como que preparando-se para um rito de passagem, como que preparando-se para cometer um crime.
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