Assim, como um novo equívoco, como um coração que transborda, como um berro sem dor, num grito manso e suave, da sua boca, em estrofes precisas e firmes, com a altivez daquela cantora que um dia alguém lhe apresentara, saltava a canção,

"Chega de tentar dissimular
E disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar
E eu não posso mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar e me cortou

Chega de temer, chorar, sofrer
Sorrir, se dar, e se perder, e se achar
Que tudo aquilo que é viver,
Eu quero mais é me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o Sol
Desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manhã

Nascendo, rompendo, rasgando,
E tomando meu corpo e então...
Eu... chorando, sofrendo, gostando, adorando
Gritando feito louca, alucinada e criança
Sentindo o meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar
Explode coração"


Cantando, conversava. Não com um homem, porque dessas dores ela já não padecia como outrora, mas com o mundo. Quem lhe cortara fora o mundo. Era para o mundo que entoava aquelas palavras. E o mundo, naquele momento, eram os passageiros que com ela atravessavam a cidade. Para chegar onde ela não sabia. Ainda.